08.02.2010
Agronegócio no Centro-Oeste perde mais com clima quente
Novo estudo confirma previsões anteriores
Prejuízo em Mato Grosso, polo de agronegócio, pode chegar a R$ 333 bi até 2050, devido principalmente à escassez de água
Conforme indicou a edição de 21 de dezembro passado deste Observatório, o agronegócio brasileiro deverá ter uma nova geografia econômica nos próximos decênios, devido aos impactos do aquecimento global já previstos por cientistas brasileiros e em sintonia com os estudos mundiais. Indicações de novos resultados de estudos já começam a chegar aos jornalões brasileiros. O impacto na disponibilidade de água na região Centro-Oeste não será apenas no agronegócio, é bom frisar, pois o Cerrado tem sido a “caixa-d’água” que garante boa parte da geração de energia hidrelétrica do país (Maurício Galinkin, editor do Observatório).
Estimativa integra nova fase do relatório "Economia do Clima", primeiro a fazer no Brasil o cálculo do custo do aquecimento global O Centro-Oeste sofrerá as maiores perdas econômicas do Brasil, em termos proporcionais, com aquecimento global. Até 2050, o prejuízo pode atingir R$ 639 bilhões, o equivalente a dois anos e meio de crescimento. Só em Mato Grosso, principal polo do agronegócio da região, o valor chega a R$ 333 bilhões. É como se o Estado parasse de gerar riquezas durante mais de cinco anos.As informações fazem parte de uma nova etapa do estudo "Economia do Clima", que no fim do ano passado estimou prejuízo de até R$ 3,6 trilhões nos próximos 40 anos em todo o Brasil. Um novo relatório, com lançamento oficial previsto para o primeiro trimestre, detalha onde e como acontecerão os estragos. AgriculturaEm entrevista à Folha, Carolina Dubeux, coordenadora operacional do projeto (que reúne 11 instituições de pesquisa), adiantou alguns resultados. Segundo a pesquisadora da Coppe/UFRJ, os indicadores demonstram uma diminuição significativa das áreas "aptas às culturas alimentares". Sobretudo por conta do clima mais quente e seco e do acesso à água mais limitado.
O estudo baseia-se em dois cenários do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) -um com emissões menores de gases-estufa, outro com emissões maiores. A medida de comparação é o PIB, soma de todas as riquezas produzidas, de 2008.No Nordeste, as áreas de cultivo podem encolher 23% até 2070. No pior cenário, a região perde R$ 653,7 bilhões, quase duas vezes seu PIB de 2008. Alagoas tem prevista a maior perda relativa da região (R$ 95 bilhões), quase cinco anos de crescimento jogados fora.
No Norte, as quedas variam entre R$ 91,6 bilhões e R$ 267 bilhões. Roraima, cujo PIB (de R$ 4,2 bilhões) é o menor do Brasil, perderá, no mínimo, o equivalente a 14 meses de produção. Na pior hipótese, amargará estragos comprometendo três anos de sua economia.
O estudo alerta que a redução nas áreas de cultivo aumentará a pressão sobre as florestas nativas. A expansão do pasto também é uma preocupação, afirma Dubeux. "As pastagens têm baixa produtividade, mas em algumas regiões, elas serão uma opção tentadora para substituir as lavouras. É uma situação preocupante."
Tanto o Nordeste quanto o Norte enfrentarão ondas de calor. A quantidade de chuvas também deve diminuir, reduzindo a vazão dos rios e, assim, prejudicando a geração de energia. Embora o estudo não detalhe quais seriam os impactos específicos em cada empreendimento, as bacias hidrográficas que alimentam as três maiores hidrelétricas planejadas ou em construção no Brasil -Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará- poderiam ser afetadas.
A redução nas vazões também deve chegar ao Centro-Oeste, onde, segundo o Plano Decenal de Energia, Goiás receberá 15 novas hidrelétricas nos próximos oito anos. Poluição atrai poluição
"Precisaremos de investimentos muito grandes para compensar os efeitos negativos da redução dos recursos hídricos", diz a coordenadora do estudo, que aponta uma queda de até 31,5% da capacidade de geração de energia firme [aquela garantida mesmo sob condições climáticas adversas].
A dificuldade para gerar energia nos rios deve impulsionar o uso das usinas termelétricas, mais poluentes.
Segundo Eduardo Haddad, professor da USP e coordenador de modelagem econômica da pesquisa, isso aumenta a dependência do uso do petróleo e seus derivados, "amenizando parte do impacto econômico nos Estados produtores", como Rio de Janeiro e Sergipe. As consequências ambientais, por outro lado, podem se agravar com a energia "suja".
A agricultura, pilar econômico da região Centro-Oeste, deve sofrer efeitos em todas as culturas. As áreas favoráveis à produção de arroz e feijão podem encolher 12% e 10% respectivamente até 2050. As plantações de soja também serão afetadas, com redução de área potencial de até 34%.

Fonte: Giuliana Miranda, colaboradora da Folha de São Paulo. Texto original em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0702201001.htm

São Paulo terá o maior prejuízo absoluto
Embora São Paulo tenha escapado das projeções climáticas mais pessimistas, o Estado terá os maiores prejuízos absolutos, acreditam os pesquisadores. No pior cenário, os danos chegam a R$ 1,2 trilhão - mais de um terço da queda de PIB projetada para o país todo. Ainda que as emissões diminuam, os danos potenciais são de, pelo menos, R$ 230 bilhões, ou seja, 25% do PIB nacional em 2008.
"Apesar de uma pequena perda na agropecuária, São Paulo enfrentará principalmente a queda na demanda das áreas mais afetadas. O Estado tem uma economia que depende muito dos fluxos do mercado interno", afirma Eduardo Haddad, da USP. Ganhos no Sul
Já a região Sul, ao contrário do resto do país, pode sair economicamente beneficiada. As temperaturas mais elevadas e a diminuição das geadas favorecerão a agricultura. Em um cenário com menos gases-estufa, os Estados da região podem chegar a ganhar R$ 563 bilhões. Na pior das hipóteses, as perdas provocadas pelo aquecimento global representam um comprometimento de menos de quatro dias de crescimento.
Segundo Carolina Dubeux, que coordena o estudo, o relatório completo mapeará os impactos das mudanças climáticas de maneira ainda mais detalhada. "O estudo estará disponível em linguagem acessível justamente para que todos possam compreender. Nosso objetivo é que as mudanças sejam debatidas amplamente", diz.

Fonte: Giuliana Miranda, colaboradora da Folha de São Paulo. Texto original em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0702201002.htm