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Uma Análise Preliminar das Transformações Recentes na Agropecuária Latinoamericana 28.10.08
Por Eduardo Gudynas (1)
Artigo publicado em Economía Crítica y Desarrollo 3 (5): 167-191; 2008. Chile
Apresentação
O presente artigo está baseado na apresentação realizada pelo autor no seminário "A agricultura latinoamericana frente às negociações comerciais (OMC/ bilaterais): mobilização social e articulação internacional", convocado pelo Grupo de Trabalho em Agricultura da Alianza Social Continental e outras organizações, no Rio de Janeiro (21-22 agosto 2008).
Introdução
A agropecuária na América Latina recuperou parte de sua importância econômica passada, no calor dos incrementos dos preços dos alimentos e um fluxo exportador excepcional. Em alguns países, os produtos agroalimentares se converteram em estrelas do crescimento econômico, e a partir de então algum otimismo se respira entre as agroindústrias.
O presente artigo oferece uma revisão de algumas idéias-chaves sobre estas transformações recentes na agropecuária latinoamericana. A análise articula, de forma heterodoxa, a economia política e a ecologia política desse sector, e o faz desde a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Neste artigo se postula que os câmbios atuais na agropecuária não são apenas de grau ou um aprofundamento de velhas tendências mas, sim, que representam transformações radicais.
Estas se baseam em uma expansão do novo capitalismo sobre os processos e atores envolvidos na atividade agropecuaria, gerando uma mercantilização ainda mais profunda e a fragmentação da produção. Este câmbio opera essencialmente pela imposição e adoção de um certo estilo de produção antes que pela propiedade da terra ou dos meios de produção. Estes câmbios têm consequências muito diferentes entre os distintos atores sociais, e afeta principal e negativamente às comunidades camponesas e os agricultores familiares, que correm sérios riscos.
Em consequência, neste trabalho são aordados alguns pontos mais importantes destas transformações, hierarquizados com referência às discussões atuales entre vários movimentos sociais. ressalto, então, que o presente texto não pretende ser uma revisão exaustiva de toda esta temática, limitando-se a uma contribuição enfocando especialmente as organizações da sociedade civil.
(1) (Secretario Executivo do Centro Latino Americano de Ecología Social (CLAES), Montevidéu, Uruguay.
www.agropecuaria.org egudynas@agropecuaria.org)
Veja o artigo completo, em castellano, em Documentos
Hoje é o dia do Cerrado: em 30 anos, o agronegócio fará dele "apenas um retrato na parede" 11.09.08
Comentário do
editor:
Temos que comemorar, enquanto existe!
Parafraseando o que disse Drummond sobre sua Itabira (MG), ele será
apenas "um retrato na parede. Mas como dói"... (citando de
memória).
Contando com menos de 4% de áreas protegidas, o bioma Cerrado está
com os dias contados. No último estudo da ONG Conservação
Internacional (CI), o ritmo de destruição do Cerrado estava em 1,1%
ao ano, ou seja, 22.000 quilômetros quadrados. Isso vem acontecendo
desde início da década de 1970 .
Com 60% de sua área já completamente modificada pelo homem, o que
dá 120 milhões de hectares, agora só restam 80 milhões ha com pouca
ou nenhuma alteração, mas em sua maioria composta de areões, fundos
de vale e áreas menos adequadas à agricultura comercial, lembra
Paulo Gustavo, diretor da CI.
A fronteira agrícola do Cerrado está no Piauí, Maranhão, Tocantins
e parte do oeste da Bahia, onde ao ritmo do sobe e desce das
commodities a cobertura vegetal natural vai caindo para ser
substituída por plantios comerciais de grãos e matérias primas para
agrocombustíveis. Cana-de-açúcar, inclusive.
Com pelo menos 30 anos de atraso, o governo federal agora propõe-se
a criar um sistema de monitoramento do Cerrado, à semelhança da
Floresta Amazônica, e o anuncia com a devida pompa e circunstância
- e os holofotes, claro - na reunião do Conselho Nacional de Meio
Ambiente (CONAMA) realizada ontem.
Esse mesmo monitoramento será fruto de um convênio de cooperação
entre a citada CI, que já estuda o Cerrado há décadas, a ONG The
Nature Conservancy (TNC), a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o
Ministério do Meio Ambiente (MMA), que já está pronto para ser
anunciado em Goiânia (GO) dia 25 próximo. Será mais um dia de
holofotes para o ministro, sobre a mesma ação, pra variar.
Mas a pergunta que surge é o que será feito com os resultados do
monitoramento? com certeza, anúncios do ministro para imprensa,
holofotes inclusive. E o que mais? Ricardo Machado, diretor do
Programa Cerrado-Pantanal da CI, informa que com o monitoramento
permanente e contínuo serão construídos Cenários futuros, que
poderão auxiliar no desenho das políticas públicas de conservação e
defesa do bioma.
Indagado se vê alguma possibilidade do governo implementar
políticas para defender o Cerrado, Ricardo simplesmente responde:
"temos que ser otimistas!"
Arrozeiros colhem quase R$100 mi na TI Raposa Serra do Sol enquanto não sai decisão do STF 09.09.08
Vejam
a notícia de ontem (08) do Globo Rural:
"O STF,
Supremo Tribunal Federal, adiou o julgamento sobre a demarcação da
Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Enquanto a
decisão não sai, produtores de arroz colhem mais uma safra.
A colheita do arroz está em ritmo acelerado. Os grãos que foram
plantados em maio, no início do inverno, quando as chuvas são mais
intensas, estão rendendo bem.
A Reserva Raposa Serra do Sol, no norte do Estado de Roraima, área
que foi homologada como terra indígena pelo governo em 2005, é
ocupada também por agricultores, não índios, desde 1991. A
principal atividade agrícola desenvolvida por eles é a produção de
arroz. A lavoura ocupa 6,5% do total da reserva que possui 1,7
milhão de hectares.
Enquanto os produtores e índios esperam a decisão do Supremo
Tribunal Federal sobre a contestação da demarcação, a colheita
segue normalmente.
“Existe um planejamento estratégico a ser alcançado. E nós já
estamos em fase de andamento da produção da lavoura de verão,
considerada nossa lavoura principal”, explicou a agricultora Isabel
Itikawa.
Na fazenda Tatu o agricultor Márcio Eli Barili espera colher 1,5
mil toneladas de arroz nos 230 hectares que cultivou. “É uma safra
de inverno que a gente costuma plantar. Uma para fazer semente e
outra para estar sempre em movimento com os funcionários, não
deixar parado e dar continuidade ao trabalho”, falou.
Apesar de não ser a safra principal de arroz, o que está sendo
produzido vai abastecer o mercado da capital Boa Vista e de outros
Estados, como de Amazonas.
A expectativa dos agricultores é que sejam colhidas até o fim do
mês 150 mil toneladas de arroz. Quando a colheita de inverno acabar
eles já começam a preparar a terra para o cultivo da safra
principal, que começa nas próximas semanas.
Não há data prevista para a retomada do julgamento no Supremo
Tribunal Federal."
Fonte: Globo Rural (http://globoruraltv.globo.com/GRural/0,27062,LTO0-4370-328528,00.html)
Comentário do
editor
No mês passado a Conab leiloou arroz em casca no RS e obteve
R$0,65/kg (veja Leilão de arroz vende todos os
lotes).
Ou seja, os invasores arrozeiros, com a protelação da decisão no
STF, pelo sim ou pelo não, estão colhendo quase 100 milhões de
reais de produção em terras indígenas, que começaram a ser
demarcadas em 1977, "data a partir da qual o tema ganhou todas as
tintas dos chamados 'fatos públicos e notórios'", segundo o voto do
Ministro Relator Ayres Britto, do STF, (p. 90, §108 do voto), sendo
invadidas pelos rizicultores 14 anos depois, em 1991.
Não foi sem razão, ao que tudo indica, que os arrozeiros instalados
na TI Raposa Serra do Sol tanto comemoraram o pedido de
vistas.
Há Urgência na Regulação Internacional de Critérios para atuação do Agronegócio 08.09.08
Comentário do editor:
Quando iniciamos o debate sobre que conjunto de critérios seria
necessário criar para a contenção dos altos impactos ambientais,
sociais e econômicos negativos resultantes da expansão da fronteira
agrícola em nosso país, há mais de seis anos atrás, a primeira
linha de argumentos baseava-se na efetiva aplicação das legislações
ambiental e trabalhista brasileiras. Mas em muitos pontos era
necessário ir além, e exigir que os grandes compradores de soja
(discutia-se, então, apenas a soja, a grande impulsionadora da
fronteira agrícola naquela época) adotassem critérios de compra que
iriam além da legislação básica, pois senão deixaria de haver
proteção adequada ao meio ambiente e às populações atingidas.
E a discussão desembocou em um ponto fundamental: de nada
adiantaria proteger apenas nosso país se disso resultasse uma
"exportação" de impactos negativos para nossos países vizinhos, ou
para outras regiões. Os critérios deveriam ter aplicação universal,
para todos os países, mesmo se a legislação local fosse menos
restritiva.
E ficávamos imaginando o que aconteceria se o agronegócio
viabilizasse produções em países sem legislação mínima, tanto
ambiental quanto trabalhista, e com ainda menor capacidade de
fazê-la respeitada que no Brasil. Países sem sociedade civil
organizada, alguns com Estados ficcionais criados pelos
colonizadores mas, de fato, divididos entre tribos rivais,
etc.
Imagine, caro leitor, enclaves de 100 mil, 200 mil hectares,
cercados e vigiados por milícias privadas, onde ninguém entra sem
consentimento do proprietário, não existe legislação de proteção
aos trabalhadores ou ao meio ambiente, não existe sequer Estado
nacional.
Em outubro de 1964 eu vi isso, pessoalmente, em minerações na
Libéria. Um Estado privado dentro de um país. Assim como está
acontecendo em favelas no Rio de Janeiro, mas sem existir um Estado
nacional que tente impor suas leis.
Pela reportagem que saiu no jornal alemão Der Spiegel, no sábado
(06), esse cenário aterrorizante já começa a desenhar-se na África,
onde empresas iniciaram uma corrida para produzirem
agrocombustíveis. E esses enclaves vão certamente acontecer porque
as empresas estão buscando os países mais carentes, onde não existe
ou é muito fraca a presença do Estado de Direito, os governos estão
ávidos por investimentos, por geração de renda, etc, e abrirão mão
de qualquer questão que as empresas exigirem para lá se
instalarem.
Se aqui, com toda legislação e um grau relativamente grande de
fiscalização (exceto na Amazônia) ainda encontra-se trabalho
escravo, imagine na África. Das questões ambientais, então, nem se
fala.
Até mesmo o chamado setor produtivo tem que perceber a necessidade
dessa urgente regulação internacional da produção de
agrocombustíveis, para proteger-se de concorrência desleal (sei que
algumas empresas preferirão implantar filiais lá, e beneficiarem-se
dessa situação sem lei).
Mas o Brasil, enquanto país, como signatário de acordos
internacionais nas esferas trabalhista, ambiental e de direitos
humanos, e dentro da perspectiva de solidariedade entre os povos,
tem a obrigação de preocupar-se com essa questão e liderar um
processo de estabelecimento de critérios de produção e de compra
que os grandes compradores terão que exigir dos produtores, para
evitar o surgimento de um novo ciclo de escravidão e sofrimento de
populações sem alternativas de vida. E as empresas que aqui
trabalham têm, também, uma obrigação solidária nesse sentido.
Veja a reportagem do Der Spiegel, traduzida pelo UOL,
aqui
Veja os Critérios da Articulação Soja-Brasil (de 2004)
aqui.
Observatório completa um ano 05.09.08
esperando ter contribuído para
equilibrar noticiário
No
domingo, sete de setembro, o Observatório completa um ano de
existência "no ar".
A proposta do Observatório, desenvolvida em seu projeto inicial,
era bastante ambiciosa, pretendia criar uma pauta própria de
cobertura das questões ambientais, sociais e econômicas que o
agronegócio impinge ao país e à sua população, especialmente às
comunidades do campo e grupos indígenas, que sofrem com o chamado
"progresso". Teríamos repórteres indo fundo nas questões,
especialmente na fronteira agrícola, correspondentes em diversos
pontos do país e do mundo, atualizando os leitores com visões
regionais e locais das questões suscitadas pela atuação do
agronegócio, em suas diversas commodities.
Embora previsto para ser implantado por partes, o conjunto da
proposta exigia um volume de recursos relativamente grande, e o
projeto não obteve financiamento.
Sem dúvida, faltou ao autor do projeto experiência nesse tipo de
mídia - Internet - bem como ser menos ambicioso, mais modesto, na
sua propositura. Todos temos defeitos e viéses, alguns mais, outros
menos.
E teimosia, cabeça dura, como se diz, é um desses defeitos - entre
muitos outros - que este editor claramente reconhece em si, e que o
levou a produzir este Observatório com seus próprios recursos e com
o apoio abnegado de alguns colaboradores voluntários, a quem
agradeço coletivamente, aqui.
Mas os limites são objetivos, e com isso o Observatório, durante
este ano, só reproduziu notícias da imprensa, de forma seletiva mas
democrática, buscando os vários lados das questões, tecendo
comentários, buscando contribuir para o melhor entendimento das
principais questões.
A pauta própria, a geração de notícias, ficou além das
possibilidades e recursos disponíveis, mas ainda continua como meta
desse Observatório. Assim como a transmissão, ao vivo, de eventos
que sejam relevantes à discussão que aqui se pretende informar e
incentivar.
O papel, ou a telinha do computador, aceita fácil escrever-se que
"daqui pra frente, tudo vai ser diferente", que o Observatório do
Agronegócio conseguirá recursos para implementar gradativamente seu
projeto.
Mas, na verdade, será preciso reformular o projeto, ser mais
modesto, deixando claras as várias etapas de desenvolvimento e de
sua implementação, e encontrar apoios que permitam e garantam uma
linha editorial independente, como a que aqui é proposta. Mas isso
não é tarefa trivial.
Agradeço a tod@s que fizeram as 17.948 leituras do sítio nesse
período de um ano, até o dia 4pp., entradas que se originaram de,
pelo menos, 45 diferentes países, e que baixaram 5.624 documentos.
Dentre estes, o mais procurado foi "Geração de Renda no Cerrado",
produzido em 1999 com o apoio financeiro do PPP-Ecos, que 815
pessoas buscaram, seguido do "Relatório do Painel de Especialistas
Independentes sobre o projeto da hidrovia Araguaia-Tocantins",
publicado em 2000, produzido pelo Cebrac com o apoio financeiro do
WWF e da Agência Ambiental de Goiás, e participação do ISA, IRN,
Coalizão Rios Vivos, SBAC e Rede Cerrado, com 583 downloads,
trabalhos que tive a satisfação de participar e coordenar, ambos na
Fundação Cebrac (que não existe mais). O voto do Ministro Carlos
Ayres Britto, sobre a TI Raposa Serra do Sol, em apenas uma semana
teve 132 downloads!
Obrigado pela companhia nesse ano que passou!
Espero continuar merecendo a atenção e apoio de vocês.
Um forte abraço a tod@s,
Maurício Galinkin
editor
O poder local na nova ordem mundial 08.08.08
Por Sérgio Leitão, diretor de políticas públicas do Greenpeace
A areia do deserto do Saara que cai sobre os automóveis em Roma e a chuva da Amazônia que rega as flores do jardim da nossa casa - esteja ela construída em Alter do Chão (PA), no Jardim Ângela (SP) ou no Leblon (RJ) - apontam para a necessidade de uma participação cidadã na proteção do meio ambiente em escala planetária e no universo particular de cada um de nós. Vivemos a era do encontro do local com o global. Essa mistura, o glocal, é o mote para a inserção do cidadão nos debates sobre a nova ordem mundial. É preciso não só pensar globalmente e agir localmente, mas praticar também a lógica reversa. A maratona de eleições para as Prefeituras e Câmara de Vereadores é uma excelente oportunidade para o debate de soluções ambientais que tramem a articulação do local com o global.
O debate sobre mudanças climáticas, por exemplo, se trava nos salões da ONU. O estado da Califórnia e a cidade de Nova Iorque, no entanto, conseguiram quebrar o monolitismo do governo Bush de se negar a implementar o Protocolo de Kyoto com políticas ambientais locais eficientes. Podemos fazer o mesmo e melhor. Estabelecer Planos Municipais sobre Mudanças Climáticas, com metas de redução de emissões de gases do efeito estufa e eficiência energética, ancorados em um Código Ecológico de Construções Sustentáveis, pode ajudar a suprir a falta de vontade do governo Lula de adotar medidas concretas para resolver a crise do clima.
O Presidente alega que adotar medidas como o fim do desmatamento na Amazônia e a fixação de metas nacionais de emissões de gases de efeito estufa, irá travar o crescimento econômico do País. As prefeituras podem provar o contrário.
Outro tema global que deve ser tratado no nível local é a má distribuição de renda e seus efeitos para o meio ambiente. As diferenças no padrão de vida entre os pobres e os ricos de qualquer das nossas cidades é muito mais acentuada do que entre brasileiros e europeus. Muita gente boa por aqui já consome como um americano bem nutrido, basta olhar a quantidade de lixo que produzimos. De acordo com o IBGE, são recolhidos diariamente 230 milhões de quilos de lixo domiciliar e comercial em todo o País. Quase 60% desse total é jogado em lixões a céu aberto, o que significa altos gastos com a coleta de lixo.
Prever nas leis municipais que cada um responda pelos custos do lixo que gera preenche a lacuna deixada pelo Congresso Nacional, que desde 1999 discute o projeto de lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Os municípios estariam assim liderando as discussões sobre lixo e consumo. Mandar o lixo para longe não é eliminá-lo. Podemos começar a discutir nas cidades a nossa dificuldade de reduzir o nosso conforto, porque, como diz Umberto Eco, os resíduos “nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder”.
Nos espaços urbanos afloram de modo mais incisivo os problemas ambientais e os conflitos da vida moderna, que podem desabrochar em soluções inovadoras para a construção de um futuro melhor para a humanidade.
Custos de transporte começam a impactar no mapa e comportamento da produção globalizada 04.08.08
Comentário do editor:
Os altos custos de transporte, resultantes do salto no preço do petróleo, já começam a repercutir nas estratégias de globalização da produção, é o que informa Larry Rohter em artigo publicado ontem (03) no jornal The New York Times.
Produzir partes nos países/locais econômica e fiscalmente mais baratos, juntá-las em outro e dar acabamento final em um terceiro país já não é automaticamente a melhor forma de produzir, afirma Rohter, pois os custos de transporte subiram extraordinariamente e estão levando as empresas globalizadas a mudar de estratégias.
A economia de aglomeração, entre empresas situadas em uma vizinhança, começa a se mostrar mais eficaz, e sua proximidade com o mercado consumidor torna-se fator crucial na concorrência.
Além disso, a crescente preocupação com o aquecimento global, com a perda de postos de trabalho nos países ricos, com segurança alimentar e garantia de fornecimento, e o recente fracasso das negociações da Rodada de Doha, de liberalização do comércio internacional, são também sinais que preocupações ambientais e políticas estão fazendo mais complexo os cálculos da globalização produtiva e comercial, informa o artigo do NYT.
Segundo Rohter, esquemas produtivos que levam minério de ferro do Brasil para a China, onde é produzido aço que, transformado em máquinas de lavar é levado para a Califórnia, e em seguida embarcadas em caminhões para Chicago, estão fazendo menos sentido agora que há alguns anos.
Hoje, o custo de transporte de um container de 12 metros, de Shangai para os Estados Unidos, chega a US$ 8 mil, contra US$ 3 mil no começo da década, informa Rohter.
Como já analisado aqui anteriormente, isso deve impactar o comércio de produtos de baixo valor unitário e grande volume, as chamadas commodities, e favorecer o comércio de produtos que tenham maior valor agregado, que podem suportar maiores custos de transporte por unidade de peso. É o caso da carne versus grãos de soja. Há toda uma tendência de transferir a produção da proteína animal para países como o Brasil, grande produtor de alimentos para animais, aqui deixando todos os impactos dessa produção e evitando os altos custos de levar esse grande volume de commodities para os países consumidores de carnes.
Preparando-se para isso, em sua área de atuação, a Vale acaba de encomendar a produção de hiper navios graneleiros, com capacidade de 400.000 toneladas, como forma de reduzir custos unitários de transporte. Os navios serão fabricados na China (veja aqui).
Para ler o artigo de Larry Rohter (em inglês) no New York Times clique aqui
Obsessão pelo álcool provavelmente fez Brasil "capotar" na reta final da Rodada de Doha 01.08.08
Comentário do editor:
Articulistas e blogueiros parecem concordar, em boa parte, que a mudança de posição do país ao final da Rodada de Doha, da OMC, nesta semana que passou, em Genebra, precisa ser melhor explicada mas passa, certamente, pela obsessão governamental de ampliar o mercado internacional para o álcool brasileiro.
Alguns, como Paulo Nogueira Batista Jr. e Alon Feuerwerker, deixam claro que o insucesso das negociações acabou beneficiando o país, já que não se sabia o tamanho das concessões que estavam sendo negociadas. Para Alon, "Índia e China cuidavam de brecar um acordo global que ameaçaria os pequenos agricultores e a indústria emergente de países que não se conformam com a permanência na segunda divisão da economia mundial. O Brasil é mesmo uma nação de sorte: se não sabemos zelar pelos nossos interesses, temos quem o faça por nós. Obrigado aos indianos e aos chineses." Ele deixa claro que "Progressivamente, a política externa brasileira vai se limitando a isto: uma busca obsessiva de mercados para o álcool de cana".
Para Clóvis Rossi, a mais nova "explicação" do Chanceler brasileiro sobre a mudança de rumos - de que o Brasil não poderia se tornar "refém" da Argentina -, que jogou no lixo todo um esforço de criação do G-20 e se colocar na liderança dos emergentes, é, no mínimo, duvidosa, pois:
"1 - O Brasil sempre foi refém da Argentina (como a Argentina do Brasil), desde que os dois, mais Paraguai e Uruguai, decidiram transformar o Mercosul em união aduaneira, embora imperfeita. ...
2 - Acontece que a diplomacia brasileira jamais usou a expressão "reféns" para designar a relação com a Argentina. Usava, até a semana passada, termo completamente oposto: solidariedade."
E agora, José? o que fazer? comentando a falta de um "Plano B", Míriam Leitão, em seu blog, lembra o que é preciso fazer:
"...[um] Outro importante passo seria fazer um grande esforço de modernização dos padrões ambientais e trabalhistas da agricultura brasileira. Para isso, seria necessário um ministro da Agricultura que entendesse que defender a agricultura não é ser cúmplice dos maus produtores, mas, sim, aliar-se aos mais modernos e elevar o padrão e as exigências. ....
Se os produtores brasileiros não respeitarem os modernos padrões trabalhistas e ambientais; não montarem sistemas de rastreabilidade para comprovar sanidade do rebanho, qualidade do produto, forma de produção, região do plantio; a agricultura brasileira enfrentará dificuldades. Protecionistas ou não, os mercados passarão a exigir certificados de sustentabilidade que a maioria dos produtores brasileiros não tem condições de apresentar. É a hora de a agricultura fazer o dever de casa, pois o jogo vai ficar mais pesado. E saiba a indústria brasileira que a redução das tarifas de importação virá. É só questão de tempo. Que se prepare para mais competição."
Será que isso está claro para o chamado "setor produtivo", em especial o agropecuário brasileiro?
Qual é o jogo que o Brasil está jogando na Rodada de Doha: quem perde e quem ganha? 29.07.08
Comentário do Editor:
Como proteger os 150 milhões de produtores chineses de algodão da desleal concorrência criada pelos altos subsídios que o governo norte-americano paga à sua produção interna?
Essa é uma das perguntas-chave, de Zhang Xiangchen, principal negociador do governo da China nas negociações da Organização Mundial do Comércio -OMC, em Genebra, Suíça, a chamada Rodada de Doha, e que certamente guia seus processos negociais.
Qual será a questão-chave que está permanentemente na cabeça do representante do governo brasileiro nesse encontro, que guia suas decisões de flexibilizar ou endurecer, a cada momento de negociação?
O ministro da Agricultura, Reinold Stephanes, já disse que em momento algum foi ouvido para auxiliar ou colaborar na formação da estratégia brasileira, que o presidente da República nunca o perguntou sobre o assunto, e qualquer decisão que seja tomada em Genebra pouco impacto deverá ter na agricultura brasileira.
O fato é que se está abrindo mão, enquanto Nação, de alguma coisa em troca de outra, ou outras, teoricamente em benefício de algum(ns) setor(es) e em prejuízo de outro(s). Em alguns pontos a economia brasileira vai ficar mais vulnerável à concorrência externa, e em outros se beneficiará com mais mercado externo ou mais competitividade no mercado nacional. Pessoas vão ganhar ou perder empregos.
Será que o Chanceler Amorim tem a mesma clareza que o representante chinês?
Seria ótimo que ele esclarecesse a todos nós o jogo que está jogando, quem ganha e quem perde. A única defesa explícita que tem feito é no sentido de ampliar o mercado para nossos novos heróis, os usineiros de álcool (ou etanol, para ficar moderno): não seria importante sabermos o que mais está sendo jogado, para acompanhar os lances e quem sabe, até mesmo fazer "torcida"?
Hora de fé numa ciência que se faz popular 25.07.08
Por Ricardo Abramovay
O desenvolvimento de uma ciência cidadã está entre as condições mais importantes para salvar a vida na Terra. O homem do jaleco branco, o professor Girassol das célebres aventuras de Tintin e Milou, a clausura do sábio que conhece tanto melhor quanto menos é perturbado por temas mundanos, esta imagem do cientista vai sendo substituída pelo engajamento não só na luta contra a destruição, mas, sobretudo, no esforço de envolver os leigos com a prática científica.
As fronteiras convencionais entre descrição, compreensão e gestão encontram-se completamente borradas. O motivo é simples: os 6 mil especialistas (dos quais a metade se encontra nos Estados Unidos) voltados a estudar a diversidade biológica do planeta levariam, segundo cálculos otimistas, cerca de quatro séculos para concluir sua tarefa. Até lá, a extinção teria adquirido tal dimensão que parte decisiva do patrimônio natural desapareceria sem que sequer pudéssemos nos dar conta de sua existência. As conseqüências dessa ignorância para nossa própria vida e, sobretudo, a de nossos descendentes imediatos, seriam catastróficas. Os resultados recentes do envolvimento do público profano com o esforço dos biólogos em reduzir seu desconhecimento com relação às diferentes formas de vida na Terra não são apenas científicos, mas constituem uma das mais eficientes formas de educação ambiental que universitários, ativistas e governos vêm levando adiante.
Faz apenas vinte anos que Edward Wilson cunhou a expressão "biodiversidade", hoje tão incorporada ao vocabulário cotidiano. Seu último livro, "A Criação - Como Salvar a Vida na Terra", tem a forma de carta dirigida a um pastor, propondo uma parceria. É bem verdade que as visões que emergem, respectivamente, das catedrais e dos laboratórios, sobre a origem da vida, são opostas: "Deus fez a criação, é o que o senhor diz", escreve Wilson. Já a ciência sustenta a idéia de que "a vida se fez a si mesma, por meio de mutações aleatórias e da seleção natural das moléculas codificadoras". Wilson é delicadamente implacável com a noção de design inteligente. Mas isso não o impede de propor um terreno comum, fundamentado no amor pela Criação, que move o cientista e o homem de fé. Como cientista, Wilson não descarta a possibilidade de que pesquisas futuras venham a destruir diversos andares do edifício construído por ele e seus colegas na tentativa de compreender a vida. Mas o que se sabe até aqui exige mobilização imediata e massiva, para a qual ciência e religião podem cooperar.
O panorama atual é muito diferente daquele traçado pelo precursor da classificação das diferentes formas de vida, Lineu, que, na décima edição do "Systema Naturae", em 1758, registrava 6 mil espécies vegetais e 4,4 mil espécies animais, um terço das quais vertebradas. O livro de Wilson coloca em destaque três conquistas intelectuais da biologia contemporânea, cujas conseqüências para a economia e a sociedade são cruciais.
A primeira se refere à magnitude da biodiversidade. Existe 1,7 milhão de espécies descritas, das quais 1,3 milhão são animais compostos por apenas 4% de vertebrados. O recenseamento atinge cerca de 10 mil novas espécies por ano e os especialistas estimam que o número de espécies deve variar entre 10 e 50 milhões, o que dá uma pálida idéia do tamanho da ignorância sobre o mundo natural. A esmagadora maioria desse manancial concentra-se nas áreas tropicais. Em 1982, uma equipe científica (devidamente autorizada) aplicou densa nuvem de um violento pesticida numa árvore da floresta amazônica (prática chamada de "fogging") e constatou, pelos insetos, aranhas e centopéias mortos e coletados, que seu número - em apenas uma árvore - era da mesma ordem de grandeza de todos os insetos conhecidos na América do Norte. Mas a diversidade envolve não apenas esses milhões de animais e plantas desconhecidos - alcança também o nível genético. A saúde de uma espécie depende, em grande parte, de sua variabilidade interna: aí é que se encontram os potenciais para responder a mudanças no meio ambiente. Wilson se preocupa especialmente com a tendência das sociedades contemporâneas para concentrar seus recursos alimentares em poucas espécies e nos riscos de monotonia genética derivados das atuais modalidades de progresso técnico na agricultura.
A segunda descoberta recente da biologia envolve a complexidade, o caráter dinâmico e a natureza emergencial dos ecossistemas. Espécies e genes não podem ser tratados como listas estáticas: mantêm relações complexas, cujo estudo constitui uma das mais avançadas fronteiras da atividade científica contemporânea. Para usar a expressão de Bernard Chevassus-au-Louis, do Institut National de la Recherche Agronomique, da França, o ecossistema é uma entidade "emergente", cujas propriedades não podem ser deduzidas daquelas que estão presentes nas espécies que o compõem. Não se refaz um ecossistema destruído, a partir de espécies e genes, como se obtém infinitamente a variação das cores com base em suas três unidades básicas. Esta constatação coloca o desafio básico da biologia da conservação, que não é o de um mundo natural intocável e imutável, mas, sim, o de preservar as propriedades evolutivas dos ecossistemas.
A terceira conquista intelectual colocada em relevo no livro de Wilson vai além da biologia e é de natureza prática. Desde a revolução neolítica, ele diz, "temos procurado nos elevar saindo da natureza, em vez de ascender rumo a ela". O flerte com o sagrado contido na frase não deve escamotear um dos mais férteis programas de pesquisa e de intervenção prática levados adiante na agricultura, na construção civil, na produção de energia e em áreas econômicas as mais diversas: trata-se, em última análise, de romper com um dos mais caros mitos da civilização ocidental, que consiste em opor, como termos antagônicos, natureza e cultura, meio ambiente e sociedade. Aprender com a natureza não consiste em lidar com uma entidade mágica e intocável, à qual se opõe uma outra que lhe é estranha e exterior, a sociedade. O diálogo com o mundo religioso sugere que "salvar a vida na terra" vai muito além daquilo que o conhecimento científico oferece e supõe, antes de tudo, uma ética que permita à ciência incorporar o cidadão comum e à economia, aprender com a natureza.
Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do CNPq - www.econ.fea.usp.br/abramovay
Esqueceram da ferrovia transandina? 21.07.08
do Editor
É interessante ver como se ilude a população com "soluções" equivocadas para problemas mal formulados. Agora é o Ministério da Agricultura que se adianta e diz que a construção de uma rodovia ligando o Centro-Oeste brasileiro (aliás, diz o Porto de Santos, no Oceano Atlântico, em São Paulo) será a solução para as nossas exportações de grãos e outros produtos agrícolas para os mercados asiáticos e da Oceania.
A novidade era que essa ladaínha, antes, era apenas do Ministério dos Transportes.
O transporte rodoviário para transpor as montanhas andinas será bastante caro, sem dúvida alguma. Mas o importante nisso é que a estrada vai ser construída por empreiteiras brasileiras, o resto é bobagem. Se vai ou não economizar frete com relação aos 7.000 quilômetros que dizem vão ser economizados no transporte oceânico, essa conta fica para depois.
Enquanto isso, continua mofando nos arquivos do Ministério dos Transportes o Projeto Libertadores, iniciado em julho de 1989 por iniciativa do governo da Espanha, e que se propunha a interligar e renovar toda malha ferroviária existente ao sul do Perú, com a malha brasileira, argentina e boliviana, de tal forma a permitir um acesso ferroviário das regiões centrais do continente sul-americano aos portos existentes no Oceano Pacífico. A proposta era, também, uma interligação do Atântico com o Pacífico, via ferrovia.
O governo espanhol depositou 500 milhões de dólares, em 1989, no Banco Interamericano de Desenvolvimento, para garantir a execução do projeto. Esse dinheiro ficou lá mais de cinco anos à espera de iniciativas dos governos locais, e depois a Espanha o destinou a outras aplicações.
Agora, temos a rodovia sendo construída. Será que as empreiteiras não podiam fazer as ferrovias? não se interessaram? A Valec foi em frente com a Ferrovia Norte-Sul, e ao que parece vai ser bem competitiva com outros modais de transporte. Será que não é um bom negócio construir ferrovias?
Diretor do MMA pede demissão por crescente isolamento do ministério dentro do governo 14.07.08
Comentário do editor:
Confirmando o que este Observatório vem analisando ao longo do corrente ano, o Ministério do Meio Ambiente está cada vez mais ignorado nas decisões do governo Federal.
Na sexta-feira passada, dia 11.07, o diretor de ações para Amazônia do Ministério de Meio Ambiente, o advogado André Lima, pediu demissão em carta dirigida ao ministro Carlos Minc.
"Lima considera que o centro do governo tem conduzido nos últimos meses a questão amazônica com ambiguidade e colocando o MMA "cada vez mais isolado".
Lima fora o inspirador e coordenador das medidas tomadas desde ano passado em relação ao desmatamento. Com um passado de ativista respeitado no Instituto Socioambiental e uma "credibilidade profissional" a defender, ele faz questão de deixar claras e inequívocas as razões de sua saída, avisando que deseja prevenir quaisquer interpretações a respeito. Lista de forma objetiva as razões de sua saída, mostrando inconformidade com a ida a Noruega do ministro Mangabeira para discutir o fundo idealizado pelo MMA, assim como o adiamento da divulgação dos dados do sistema DETER do INPE."
Fonte: amazônia.org.br
Em sua carta, o advogado com mestrado em Direito Ambiental classifica o governo como "flácido e ambíguo", especialmente na área que estava sob sua responsabilidade, a Amazônia.
Como também já observado aqui, nesse espaço, o Ministro Minc aceitou o cargo já sob péssimas condições políticas e estritas ordens do presidente da República de não confrontar-se com governadores, com colegas de ministério e, certamente, com políticos da base aliada, pois estamos em ano de eleições municipais.
Hoje, o ministro ocupará os espaços na mídia com o primeiro leilão de "bois piratas", criação de sua gestão, amanhã pode ser a vez, novamente, das usinas nucleares, ou quaisquer outros motivos que encontrar. Tem que fazer figuração fora, pois no governo o MMA já não conta para nada, nem mesmo para a imagem externa, que era a principal serventia da ex-ministra.
Leia a íntegra da carta de André Lima clicando aqui.
El regreso del desarrollo rural 11.07.08
Para enfrentar los cambios radicales en la agricultura latinoamericana
Por Eduardo Gudynas
Estamos enfrentando drásticos cambios en el mundo rural. Las viejas perspectivas no son siempre adecuadas, ya que están ocurriendo profundas modificaciones en la producción agrícola, el papel del Estado, la coyuntura internacional y el papel de los actores sociales. No son cambios de grado, sino que en realidad está ocurriendo una transformación sustancial que afecta negativamente en especial a los pequeños agricultores y campesinos.
Las reformas de mercado que tuvieron lugar en las décadas de 1980 y 1990 liberalizaron el comercio agrícola en casi todos los países, y desmontaron muchas medidas de protección y apoyo estatal a los pequeños productores y a los mercados nacionales de alimentos. Las agencias gubernamentales de extensión rural fueron reducidas, mientras se aplicaban paquetes tecnológicos promovidos desde el sector privado. La producción apuntó cada vez más hacia las exportaciones y las agroindustrias cobraron un papel protagónico.
Simultáneamente no sólo tuvo lugar una crisis de los estudios sobre el desarrollo, sino que los enfoques en cuestiones rurales dejaron de ser un tema relevante o eran tildados de anticuados. Esta situación es tan dramática, que pocos meses atrás, la ministra de agricultura de Chile afirmaba que poco sabía sobre los temas rurales, pero eso no era importante en tanto lo que el campo necesitaba era un gerente. Tiempo atrás esas declaraciones hubieran resultado escandalosas, pero hoy no despiertan una mayor desaprobación pública.
La coyuntura internacional también cambió. Comencemos por señalar que nos encontramos en lo que se describe como un super-ciclo de las materias primas (commodities), donde se espera por lo menos una década de altos precios de los agroalimentos. Esto se debe a factores como la demanda desde China y otros países de Asia o a la especulación generada por fondos de inversión de los países industrializados.
Simultáneamente avanza un cambio más radical en las relaciones entre la propiedad de la tierra y su manejo en varios países, especialmente en el Cono Sur. Se diseminan convenios de arrendamiento o de gestión, por el cual un agricultor empobrecido o endeudado cede el control de su tierra. Llegan administradores rurales que aplican paquetes tecnológicos volcados hacia los rubros de mayor rentabilidad, controlan decenas o centenas de predios y cubren diferentes regiones agroecológicas. Exprimen los recursos naturales del suelo en tanto esos convenios duran unos pocos años, y una vez que los rendimientos caen simplemente se trasladan a otros predios. Esto representa otro cambio radical, donde la propiedad de la tierra como factor determinante es superada por un control sobre los procesos productivos. El capital hace que se impongan nuevos estilos de producción y comercialización.
A pesar del aumento de algunos productos agropecuarios, el encarecimiento de insumos como fertilizantes y combustibles hace que los márgenes de rentabilidad se reduzcan. Este fenómeno también golpea particularmente a los agricultores más pequeños, y bastan acotadas fluctuaciones de mercado o pérdidas de cultivos por pestes, sequías o inundaciones, para que vuelvan a caer en el endeudamiento. En esa situación deben vender sus tierras o ceden el control de su gestión a estos nuevos “administradores” rurales.
Los que sobreviven quedan atrapados en una lucha por el excedente que se origina en el campo. Los debates de unos diez años atrás enfocados en el acceso a los mercados de exportación y el deterioro de los términos de intercambio han sido reemplazados por tensiones y conflictos en cómo aprovechar esta bonanza comercial. Esas tensiones atrapan a todos: los agricultores, las grandes empresas, y los propios gobiernos.
Estos cambios son de tal envergadura que los actores rurales se organizan de nuevas maneras, impensables bajo las viejas categorías. El conflicto que mantienen en Argentina los productores agropecuarios y el gobierno de Cristina Kirchner ejemplifica las nuevas dinámicas. Allí protestan codo a codo los pequeños agricultores junto a grandes hacendados y empresarios. Se ha dicho que esa reacción expresa la voz de la oligarquía o del patriciado rural, pero esas definiciones no reflejan adecuadamente esa nueva vinclación. “No nos une el amor, sino el espanto ante el gobierno”, repite uno de los dirigentes de los agricultores familiares como explicación de la vinculación de su organización con los grandes hacendados conservadores. Están en marcha nuevas alianzas en el medio rural que tiempo atrás eran impensables, donde por un lado se usan mecanismos de protesta de los movimientos populares, pero por otro lado no se aborda la esencia del estilo de desarrollo rural, sino que la lucha radica en la apropiación de la riqueza que genera el campo.
Entretanto entre los gobiernos existen muchas dificultades para generar una nueva estrategia de desarrollo rural. Esto se debe a que la agricultura actual es funcional a la presente dinámica del Estado. Por ejemplo, en Argentina si bien ahora se cuestiona la “sojización” del campo, durante la gestión de Néstor Kirchner tuvo lugar el mayor aumento de la producción sojera: creció de un poco más de 31 millones de toneladas, en 2003/04, a más de 47 millones ton en 2006/07 (un incremento de casi el 50%). Se promovió ese monocultivo, ya que el aumento en esas exportaciones permitía recaudar más impuestos para financiar el gasto gubernamental.
Las medidas de apoyo que se anuncian también tienen muchas limitaciones. Recientemente se implantaron en Argentina compensaciones a los agricultores. Pero su examen demuestra no solo que el valor total de ese fondo es modesto, sino que además aproximadamente un 70% se destinó a la agroindustria (concentrado en unas pocas empresas), y apenas un 30% alcanzó a los agricultores. Entretanto, en Ecuador, el presidente Rafael Correa presentó un paquete de asistencia para la agricultura y los alimentos por un total de US$ 415 millones, pero lastimosamente casi el 70% está destinado a subsidiar agroquímicos (US$ 287 millones). Estos son ejemplos de las dificultades de los gobiernos progresistas en generar otro estilo de desarrollo agropecuario, ya que de una y otra manera vuelven a caer en apoyar a las agroindustrias. Tampoco deben olvidarse los programas de apoyo a los agrocombustibles, que empeoran la situación en el mismo sentido, al acentuar la dependencia del comercio exterior y ocupar tierras que podrían dedicarse a proveer alimentos.
La integración regional podría brindar algunas alternativas para recuperar autonomía frente a las presiones económicas internacionales. Pero en ese frente tampoco hay novedades auspicios ya que ese tema sigue siendo marginal en el seno de la integración regional. Por ejemplo, el MERCOSUR que como bloque es uno de los más grandes agroexportadores del mundo, carece de una política agropecuaria común y tampoco coordina su oferta comercial internacional, y de hecho los países compiten entre ellos.
Afectados por todos estos factores, una vez más los pequeños productores y los campesinos quedan marginados y olvidados. Muchos apoyos financieros en realidad terminan en el sector agroindustrial, mientras que las medidas sociales compensatorias apenas logran paliar los efectos negativos de estos procesos. Si continúan estas tendencias se corre el riesgo de la desaparición de buena parte de la agricultura familiar, mientras que la agricultura campesina quedará atrapada en la pobreza y la subsistencia, dependiente de las oportunidades de algunos mercados locales o de la caridad social. Debemos reconocer que esta problemática es todavía más grave que en el pasado, y no enfrentamos problemas coyunturales o de grado, sino que se están desarrollando cambios que son sustanciales y radicales. Por ello las medidas parciales y aisladas son insuficientes. Es necesario volver a discutir sobre el desarrollo en general, y sobre el desarrollo rural en particular, para generar cambios y alternativas muchos más profundos y abarcadores, bajo nuevas miradas, y que además deberán ser radicales.
- E. Gudynas é pesquisador do CLAES (Centro Latino Americano de Ecología Social), em Montevidéu (Uruguai).
22 anos depois, o governo brasileiro retoma a política de estoque de alimentos 07.07.08
Demanda mundial crescente e preços em alta estimulam medida, diz Mantega
Iniciativa também visa reduzir especulações em negociações de contratos futuros, pois investidores usam baixos estoques para puxar cotações
Comentário do Editor:
Depois de abandonar a política de estoques reguladores em 1986, no governo Sarney, por pressão do Banco Mundial, o governo brasileiro volta ao assunto, e aparentemente se organizará para recolocá-la em prática. E pelo que tudo indica, os organismos financeiros internacionais, entre os quais o Banco Mundial, passarão a recomendar a adoção de estocagens de alimentos para tentar fazer frente à avassaladora onda especulativa que jogou os preços dos alimentos nas alturas.
Para saber mais sobre o abandono dos estoques reguladores pelo governo Sarney, e muito mais coisas sobre as políticas agrícolas de então, veja estudo que coordenei em 1994, na Fundação CEBRAC, intitulado "Produção de Estudos e seus Efeitos na Política Agrícola" (1994).
Este trabalho resultou de um Convênio entre Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e a Fundação CEBRAC. Seu objetivo principal foi fazer um monitoramento final dos efeitos das pesquisas financiadas com recursos da Parte C do Empréstimo BIRD 2727 - BR na determinação das Políticas Públicas Agrícolas. Este projeto teve como finalidade embasar o governo brasileiro na definição de políticas agrícolas. Os recursos foram gerenciados inicialmente pelo Ministério da Fazenda, e na fase final, pelo IPEA em convênio com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
A análise feita pelo CEBRAC foi concluída em julho de 1994, tendo sua versão final em 1995.
Para baixar o estudo, em Acrobat.pdf, vá à seção Documentos clicando aqui e faça o download
A notícia a que o comentário se refere
"Apesar dos conselhos para aumentar o superávit primário e restringir ainda mais o crédito, o presidente Lula avalia que, por enquanto, não é necessário aprofundar medidas nessa área. Mesmo assim, determinou a sua equipe que elabore outras propostas para conter a inflação -entre elas, uma política de estoque de alimentos.
O governo espera gastar de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões para elevar os estoques de arroz, feijão, milho e trigo para 6 milhões de toneladas. O valor varia porque o governo ainda não sabe por quanto tempo comprará os produtos. Hoje, os estoques desses alimentos estão em 1,59 milhão de toneladas.
O ministro Guido Mantega (Fazenda) disse à Folha que o governo decidiu refazer sua política de estoques reguladores diante da nova conjuntura mundial, de demanda crescente e preços em alta.
"O mundo inteiro deixou de ter estoques. Estamos com os mais baixos estoques mundiais de trigo e milho", afirmou, acrescentando que hoje o governo só tem um estoque recente regulador de arroz.
Segundo Mantega, o ideal é que tanto o governo como o setor privado busquem formar estoques de alimentos para evitar grandes oscilações de preços e perdas para os produtores rurais caso sua cultura apresente um momento de desestímulo nos preços.
A Folha apurou que a iniciativa também visa reduzir as especulações em negociações de contratos futuros. Isso porque a maioria dos investidores utiliza os baixos estoques para puxar as cotações para cima.
Esse aumento possui dois reflexos imediatos. Por um lado, estimula a plantação de algumas culturas, mas, por outro, torna o mercado volátil e dificulta ações do governo, porque há reajustes de preços para o consumidor, provocando impacto nos índices de inflação.
Por determinação de Lula, as medidas estão sendo estudadas pela equipe do ministro Reinhold Stephanes (Agricultura). Elas serão implementadas pela Conab neste e no próximo mês e, depois de fevereiro de 2009, por conta de previsões de colheita.
Fonte: Valdo Cruz e Iuri Dantas, Folha de São Paulo (para ler a notícia na íntegra, para assinantes da Folha e do UOL, clique aqui)
Contra "agflação", G8 quer mais estoques
Cúpula dos países ricos vai propor a criação de método de estocagem de grãos para tentar a estabilização de preços
Se líderes concordarem, um grupo de especialistas será criado para discutir detalhes do plano, incluindo cotas para cada país participante
Se não há acordo no G8 para uma atuação ambiciosa em relação a um problema de médio prazo, como é a mudança climática, menos ainda se pode esperar algo forte em um tema muito mais urgente -o da disparada dos preços do petróleo e dos alimentos.
Até agora, o passo mais eficaz que os negociadores decidiram levar à consideração dos líderes diz respeito à criação de um mecanismo de estocagem de grãos para tentar estabilizar os preços quando necessário.
Seria, de acordo com o jornal "Asahi Shimbun", um modelo similar ao da Agência Internacional de Energia, pelo qual se faz um estoque de petróleo como "colchão" para crises energéticas. No momento, apenas Japão e Alemanha, entre os países do G8, têm sobra de grãos em estoque, certamente porque foram vítimas da fome na esteira da derrota na Segunda Guerra Mundial (1939/45).
Se os líderes concordarem com a proposta de seus técnicos, o G8 criará um grupo de especialistas que discutirá detalhes do plano, incluindo cotas para cada nação participante, um sistema de gerenciamento dos inventários e os canais pelos quais os grãos seriam liberados para o mercado.
.....
Outro fator relevante -e polêmico- é a especulação com alimentos nos mercados futuros. Mas enfrentá-los é tema tabu no G8 e na maior parte do mundo.
Tanto que o documento final da cúpula de Hokkaido se limitará, pelo menos de acordo com o esboço vazado para a mídia japonesa, a expressar "preocupação" com o excessivo influxo de fundos especulativos nos mercados de alimentação. E ainda acrescentará que "os mercados devem ser abertos e eficientes", linguagem cifrada para garantir que os governos não vão interferir com o livre funcionamento dos mercados.
Reforça Tomohiko Taniguchi, subsecretário de Imprensa do Ministério japonês de Relações Exteriores: "Que os governos devem influir nos mercados é fácil de dizer e difícil de fazer".
.......
Produção e consumo
A resposta do G8 é a óbvia e antiga teoria da oferta e demanda: pedirá aos países produtores que elevem a produção e, aos consumidores, que reduzam o consumo e que usem fontes alternativas de energia.
É aqui que entra o Brasil: "fontes alternativas" é uma expressão que engloba, entre outros, os biocombustíveis. Um deles, o álcool derivado da cana-de-açúcar é uma especialidade brasileira, que, no entanto, enfrenta um problema de imagem por estar sendo misturado no mesmo saco do etanol de milho dos EUA -e este, de fato, reduziu a oferta de milho para alimentação, com a conseqüente alta dos preços.
O G8, como em outros temas, fica numa declaração genérica. Dirá que o uso de biocombustíveis derivados de grãos deve ter um enfoque equilibrado entre a produção [para combustível] e a segurança alimentar, se estiver correto o esboço que vazou para a mídia local.
Está muito longe do aval amplo que o presidente Lula vem buscando nos foros internacionais de que participa.
Fonte: Clóvis Rossi, enviado Especial da Folha a Tóquio Para ler texto completo de Rossi, clique aqui (para assinantes da Folha e do UOL)
Amazônia é dos grileiros 27.06.08
Incra não sabe o que existe em 14% da
Amazônia, soma da área de SP, PR e RS
Comentário do
editor:
No dia 19 pp, com base em fatos noticiados, comentei que a Amazônia
pertence aos grileiros, não aos brasileiros (que respeitam as leis
nacionais).
Hoje, reportagens de Eduardo Scolese e Marta Salomon, na Folha de
São Paulo (veja íntegra aqui, para assinantes da
Folha e do UOL), divulgam documento do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (Incra) que constatou não ter
qualquer informação sobre 14% da região Amazônica, área que
equivale a soma dos Estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do
Sul.
São 710 mil quilômetros quadrados, duas vezes a área da Alemanha, o
centro do buraco negro da BraBoUay, onde não vigoram a
Constituição e as leis brasileiras, onde não existe um Estado
Nacional, e de onde sai produção de madeira, grãos e gado
livremente comercializados no resto do país e com grande
possibilidade de até mesmo estarem sendo exportados
"legalmente"...
Só no Estado do Pará, o Incra desconhece no que se passa em terras
legalmente sob sua guarda em dimensão equivalente ao Estado do Rio
Grande do Sul. No Amazonas, uma situação um pouco melhor, o Incra
não sabe nada sobre área igual a meio RS.
Quem está se apossando do patrimônio público, dos nossos recursos
naturais (e os destruindo), e a quem vêm servindo esses grileiros,
só o tempo e o prosseguimento do trabalho do Incra poderão
revelar.
\
Uruguai reclama que importadores exigem muito de suas bananas 25.07.08
Uruguai entra na onda do
governo brasileiro
Comentário do editor:
Seguindo a trilha do
governo brasileiro, que quer impor limites às exigências de
empresas privadas e colocá-las sob o império da Organização Mundial
do Comércio (OMC), o governo do Uruguai, segundo noticiou o jornal
Valor Econômico, em sua edição de ontem, "tomou a iniciativa de propor que o
Comitê de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (SPS) estabeleça um
grupo de trabalho para examinar as certificações privadas nessa
área, por exemplo, na importação de banana, diante de exigências
crescentes que aumentam custos para
exportadores".
Segundo relata esse
jornal, "As exigências estão crescendo, e isso
nos preocupa na falta de respaldo científico", diz Célio Porto,
secretário de Relações Internacionais do Agronegócio, do Ministério
da Agricultura. "Tem muitas certificações de supermercados
estimuladas por produtores locais que difamam produção
estrangeira".
Será que é falta de
"respaldo científico" exigir que as leis brasileiras sejam
cumpridas pelos produtores em nosso país, ou que não se desmate
mais já que, segundo afirmado diversas vezes pelo presidente da
República, pelos ministros do Meio Ambiente e da Agricultura, e
pela Embrapa, não é preciso derrubar uma só árvore para aumentar e
muito a produção brasileira de grãos, de álcool, etc? Só o Cerrado
teria mais de 50 milhões de hectares de terras que poderiam ser
adicionadas à produção, e que se encontram abandonadas por serem
pastos degradados, ou estão à espera de valorização no
mercado.
Essa maneira de tentar desqualificar os argumentos, dizendo que não
há "respaldo científico" é coisa velha, do século passado, e que
não faz sentido diante das exigências que os grandes compradores do
agronegócio brasileiro têm timidamente colocado, basicamente o
cumprimento das leis brasileiras que o Estado nacional não consegue
fazer vigorar no imenso BraBoUay que existe em quase a
metade de nosso território.
E finaliza a notícia do Valor: "Na semana que vem, o Brasil deverá
impulsionar o tema na reunião da Comissão do Codex Alimentarius, em
Roma. Essa comissão, criada em 1963 pela FAO e Organização Mundial
da Saúde (OMS), elabora normas alimentares e promove práticas leais
no comércio de alimentos."
O Uruguai vai falar de
suas bananas (nem sabia que as produziam e exportavam, e pelo jeito
deve ser um componente importantíssimo em seu comércio exterior), o
Brasil vai falar de quê? a McDonalds inglesa não quer alimentar
seus clientes com produtos resultantes do desmatamento da Floresta
Amazônica! que barreira não tarifária absurda. A Wal-Mart não quer
comprar de produtores que utilizam ou utilizaram trabalho escravo
ou infantil! outro absurdo, isso não existe no Brasil! é apenas uma
desculpa para "difamar" nossa produção!
Mas, caros leitores, o que me impressionou mais, ontem, foi esse
assunto praticamente não existir, não aparecer (à exceção da
matéria acima transcrita, do Valor Econômico) na grande mídia e,
por outro lado, não haver reação imediata por parte das
organizações socioambientais que lutam para inscrever nas relações
comerciais e de importação/exportação critérios que levem em conta
as condições ambientais, trabalhistas, a legislação vigente e
algumas coisas mais.
Governo brasileiro pede na OMC imposição de regras empresas 24.06.08
Comentário do editor:
O governo brasileiro agora quer impor regras às sociedades civis de outros países que, organizadas e com maior consciência ambiental e social, pressionam suas empresas para que adotem comportamento e padrões éticos de compra compatíveis com o estado do planeta, o avanço das relações sociais e os direitos humanos.
Não é que o Ministério das Relações Exteriores entrou com um pedido na Organização Mundial do Comércio (OMC) para que as empresas privadas sejam proibidas de adotar regras próprias de compra, de seleção de produtos, de características da forma de produzir e de fornecedores? Pode? Uma vergonha! diria enfáticamente famoso apresentador de telejornais.
Vejam o que relata o excelente correspondente do jornal O Estado de São Paulo em Genebra, Jamil Chade (os negritos são meus):
"Brasil quer regras para importação por multinacionais
Genebra - O Brasil se lança em mais uma guerra contra barreiras aos produtos agrícolas. Desta vez, o alvo não são as tradicionais tarifas governamentais, mas as novas condições de importação impostas por supermercados internacionais, multinacionais do setor de alimentação e redes de restaurantes. Hoje, o Brasil pediu na Organização Mundial do Comércio (OMC) que regras sejam criadas para impedir que essas redes estabeleçam suas próprias regras de comércio, violando as leis e padrões internacionais.
Os governos europeus alegam que não têm como forçar empresas como a Nestlé e outras a seguirem os padrões internacionais e que eles teriam a liberdade de impor condições mais duras em termos fitossanitários. Mas, para o Itamaraty, é papel dos governos dos países ricos de fato impedir que barreiras do setor privado se proliferem. "Esse será um tema quente nos próximos anos", admitiu um negociador francês.
Os exemplos de novas exigências de fato vêm crescendo. Empresas de distribuição internacional, como Wal-Mart, Carrefour, empresas de alimentos ou restaurantes vêm estabelecendo seus próprios critérios sobre o que estão dispostos a comprar. Exigências fitossanitárias, ambientais, trabalhistas e sociais passam a fazer parte dos critérios de compra dessas multinacionais."
Ora, o governo brasileiro não consegue impor as leis nacionais aos produtores -pessoas físicas e jurídicas - em grande parte do início da cadeia do agronegócio, pois estima o governador Maggi que seu Estado (o Brabouay -um "buraco negro" legal que fica no noroeste do Brasil limitando-se especialmente com a Bolívia e o Paraguay) deve abrigar cerca de 10 milhões de bois "piratas", em áreas ilegais, e quando as multinacionais -depois de muita pressão social - passam a exigir que essas leis sejam cumpridas, o Itamaraty vai reclamar na OMC???
Quando a McDonalds exige da Cargill que não forneça soja produzida por desmatamento na Amazônia - e o governo brasileiro, da boca para fora, diz que quer proteger a floresta amazônica - e que além disso as leis trabalhistas, sociais e ambientais brasileiras sejam respeitadas, o país, representado por seu governo de plantão, vai pedir "proteção" à OMC?
Porque os representantes do governo brasileiro não foram se queixar ao Papa?
Maggi diz na Câmara que MT tem 10 milhões de "bois piratas" 20.06.08
e ocupam 110 mil km2 de território que só pode ser a Brabouay
Comentário do Editor:
Qual será esse país, que tem como governador o sr. Maggi? as leis brasileiras lá não vigem, portanto o território não deve fazer parte do Brasil. Seria o Brabouay? (parafraseando Edmar Bacha em seu BelÍndia). Vejam o que declarou ontem, em plena casa que representa o povo brasileiro, e responsável, juntamente com o Senado, por criar as leis do país:
"O governador Blairo Maggi, na audiência pública da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável sobre o desmatamento na Amazônia, ontem (19) na Câmara dos Deputados, estimou que os "bois piratas" totalizem 10 milhões no Mato Grosso. O Estado tem hoje 26 milhões de cabeças de gado em uma área de 28 milhões de hectares. Segundo ele, se o governo apreender essa quantidade de gado, isso vai afetar o preço da carne nos supermercados.
Ou seja, 38% do gado em Mato Grosso é criado por pecuaristas que estão fora da lei brasileira. Como perguntei no comentário de ontem, como é que pode tamanha ilegalidade existir dentro de um Estado nacional, pois usando a mesma proporção indicada pelo governador de Brabouay eles devem estar ocupando uma área desmatada de 11 milhões de hectares: isso equivale a 110 mil quilômetros quadrados! Quase a metade do Estado de São Paulo, maior que Rio de Janeiro e Espírito Santo, juntos. Não dá para passar despercebido ao longo dos anos.
E tem mais, segundo matéria da Agência Câmara:
"Certidão ambiental
O governador reafirmou que é necessário um prazo maior para os produtores se enquadrarem na exigência de apresentação de "nada consta" em relação a passivos ambientais. O documento será exigido a partir de 1º de julho como um requisito para a obtenção de crédito. Esse prazo consta de portaria editada pelo Conselho Monetário Nacional.
Blairo Maggi propôs que se mantenha a proibição de crédito somente para novos empreendimentos e se permita o acesso para as atividades que estão em funcionamento. Ele lembrou que o licenciamento ambiental é um processo lento e depende da regularização fundiária."
Fonte: Mônica Montenegro/Agência Câmara, extratos da matéria pelo Observatório
Toca-se na questão da regularização fundiária, en passant, já que é pressuposto básico para o licenciamento. Creio que o maior nó está aí, pois provar que é dono da terra que explora para produzir grãos ou criar gado não será tarefa fácil, ao que tudo indica, em Brabouay.
Amazônia pertence aos grileiros, não aos brasileiros 19.06.08
Comentário do
Editor:
Ficam os hiper-nacionalistas e, entre eles, os militares,
preocupados com uma possível internacionalização da Amazônia, com o
que acham ser a "cobiça internacional" querendo incentivar etnias
indígenas a criarem territórios independentes, e teorias
conspiratórias de toda ordem.
Sugiro que façam uma visita ao Departamento Nacional de Produção
Mineral -DNPM, órgão do Ministério das Minas e Energia, e
verifiquem quais são as empresas que já requereram direito de
pesquisa e lavra dos minerais existentes no subsolo da Amazônia.
Creio que todo esse território deve estar concedido -e certamente
são poucas as empresas genuinamente nacionais que obtiveram
outorgas - e ainda tem fila de espera. Até territórios indígenas
estão devidamente mapeados e requeridos.
Isso ao que se refere ao subsolo, constitucionalmente pertencente à
União.
Já o solo, quando não é terra indígena devidamente demarcada e por
eles protegida, está mais para os grileiros que para legítimos
proprietários ou a União.
Como é que pode uma pessoa desmatar 4.000 hectares de floresta, o
que não se faz da noite para o dia, e só três anos depois de fazer
esse "servicinho" ser autuada, como mostra a notícia de hoje? como alguém faz
isso dentro de uma terra indígena (mesmo considerando que o texto
divulgado é meio dúbio, não dá certeza quanto a isso...)?
Somando isso a outras notícias já comentadas aqui anteriormente,
como o impedimento, em Mato Grosso, do direito constitucional de ir
e vir a membros de uma ONG, as ameaças a fiscais do Ibama, o fato
de que, segundo o presidente da Aprosoja (que reúne os produtores
de soja de Mato Grosso) apenas 4 mil das 120 mil propriedades
rurais do seu Estado operarem seguindo as leis nacionais (e daí a
maioria delas não ter chance de conseguir atender os critérios
baixados pela resolução do Conselho Monetário Nacional, que só
permite empréstimos a quem cumprir as leis), o problema real é a
inexistência do Estado brasileiro. Isso, a cada dia, fica mais
evidente e mais desafiador.
O controle de algumas favelas cariocas pelos traficantes e
milícias, onde também o Estado Nacional não existe, é café pequeno
diante da imensidão amazônica sem Constituição e sem lei, onde o
mais forte e mais esperto prevalece, inclusive pela força das armas
(como no Rio de Janeiro, mas em escala ampliada), onde a vida
humana vale pouco ou nada.
E os recursos naturais, em especial as árvores da floresta -
patrimônio natural nacional - vai sendo exaurido, explorado em
benefício desses poucos, pessoas que deliberadamente desconhecem o
que determinam a Constituição e as leis, e mais ainda as
autoridades encarregadas de aplicá-las, e continuam agindo à
revelia das decisões tomadas no Planalto Central.
Não será preciso ação de nenhuma potência estrangeira para que
percamos nossa Amazônia: a inação do governo, frente à prepotência
de uns e a grilagem de outros já será suficiente para que a
devastação prevaleça e ela se acabe.
Mas em declaração na Câmara dos Deputados, ontem, o ministro da
Justiça, Tarso Genro, assegurou que "O governo vai reverter integralmente a
soberania do País no controle da Amazônia". Vamos torcer para que
isso aconteça rapidamente, caso contrário nada sobrará para atrair
a cobiça, seja de brasileiros ou estrangeiros.
Preocupação com o "bem comum" ainda não chegou à cadeia da soja 18.06.08
Comentário do
Editor:
Ontem tratei rapidamente de como se chegou à "decretação" da
moratória da soja na Amazônia. Hoje, ela foi prorrogada por mais um
ano, depois de dois anos bem sucedida, mas deixando um travo amargo
na boca de quem, como eu, acompanha o assunto desde que era apenas
um desejo (mais amplo, é bom ressaltar, pois incluía o
Cerrado).
Porquê isso? perguntará o nobre leitor. Não foi uma outra vitória,
conseguir mais um ano?
Claro que sim, são 365 dias a mais de compromisso das maiores
compradoras de soja no Brasil, de que não aceitarão grãos
produzidos em áreas da Floresta Amazônica desmatadas após agosto de
2006. É, sem dúvida alguma, outra vitória.
Mas porquê essa amargura? volta você a perguntar.
Esse sentimento brota do fato de que, na minha percepção, isso
ocorreu e continuará ocorrendo por mais um ano apenas porque as
empresas européias clientes dessas
traders continuam firmes
exigindo a moratória.
Não sinto que os dirigentes das
traders e suas associações no
Brasil, apesar de serem pessoas muito inteligentes e bem educadas,
tenham entendido ou apreendido (melhor seria aprendido?) o sentido
de suas ações, de seu possível impacto no comportamento da
sociedade e de seus fornecedores, de seu efeito educativo, em
geral. Limitaram-se a atender a uma demanda de seus principais
clientes, sem refletir muito sobre o que estavam fazendo quase que
burocraticamente.
Agora, ao invés de prosseguir com a moratória, eles desejavam
passar a comprar soja de áreas legalmente desmatadas na Amazônia, e
isso, na realidade, seria abandonar a moratória que visa resguardar
a floresta de mais desmatamento - que certamente será acelerado com
os altos preços das
commodities agrícolas.
Não é preciso moratória alguma para aplicar a lei. Esse instrumento
é uma decisão autônoma e decidida para resguardar algo que a
própria lei não consegue fazer, como dilatar prazos de dívidas para
que o devedor possa se recuperar e quitá-las, etc.
Mudaram de posição, segundo informações, depois de um telefonema do
ministro do Meio Ambiente, e concordaram em prorrogar a medida por
um ano mais. O que foi conversado, qual foi a barganha ou o poder
de persuasão do ministro, ninguém ainda sabe.
E não sei se é ainda pior ver a ligeireza com que o ministro diz
que vai transpor a moratória da soja para madeireiras e
frigoríficos. Certamente não tem a menor idéia das dificuldades
enfrentadas, da imperiosa necessidade do setor se ver espremido
entre a opinião pública e seus principais compradores, pois sem
isso não há empresa privada que abra mão de um centavo de
lucro.
Parece até que para ele tudo se decide em uma rodada de
chopp na mesa do bom e velho
Lamas (ainda existe?), no Rio de Janeiro.
Moratória da soja na Amazônia é prorrogada 17.06.08
após dois anos de sucesso: agora falta incluir o Cerrado
Comentário do Editor:
Difícil, em todo seu percurso, as partes envolvidas caminhando em fio de navalha, desde o começo, e criticada por todos os lados, a Moratória da soja na Amazônia chega ao seu segundo ano e vai valer por mais um tempo.
Declarada unilateralmente pela Abiove e Anec, em nome das empresas que as compõem, resultou na realidade de uma articulação de ONGs e pesquisadores brasileiros que deu suporte à ação efetuada pelo Greenpeace em Londres. Isso fez a opinião pública pressionar grandes compradores de soja e seus produtos, a McDonalds e a KFC. Estes, por sua vez, cobraram das traders fornecedoras de soja, e dentro da pauta de reivindicações apresentada pelo Greenpeace houve a decisão das citadas associações pela moratória.
Um primeiro passo que se consolida, depois de muitas dúvidas que a verificação do monitoramento esclareceu e mostrou sua viabilidade, um trabalho que todas partes envolvidas merecem os parabéns.
Agora, além de consolidar o trabalho na Amazônia, deve ser dado o passo seguinte para aplicá-la no Cerrado, que pede um urgente socorro. Uma frase que venho falando nos últimos oito anos, que o governo adotou recentemente, aplica-se também ao Cerrado: não é preciso destruir mais áreas de Cerrado para aumentar a produção, não é preciso cortar uma só de suas tortas árvores para triplicar a produção brasileira de soja ou o que for.
Creio que esse trabalho na Amazônia conseguiu, também, reduzir o peso do estigma da palavra "moratória" entre os comerciantes e produtores de grãos, e podemos voltar a falar: Moratória para o Cerrado, já!
Setor prorroga moratória da soja para preservar Amazônia
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) anuncia hoje, em Brasília, a prorrogação da chamada Moratória da soja na Amazônia. Trata-se de um compromisso das indústrias de não comprar soja de áreas desflorestadas na Amazônia após julho de 2006. A decisão da Abiove foi tomada pela primeira vez em julho de 2006, com validade de dois anos.
Na ocasião, o setor também se comprometeu a trabalhar em conjunto com entidades representantes da sociedade civil, como Organizações Não Governamentais (ONGs) ambientais e sociais, para adotar uma estrutura de governança com regras de como operar na Amazônia e cobrar do governo brasileiro a definição, aplicação e cumprimento de políticas públicas (zoneamento econômico-ecológico) sobre o uso da terra na região.
Recentemente, o desmatamento e a produção agrícola em áreas da Amazônia voltou a chamar a atenção nacional e internacional.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o presidente da Abiove, Carlo Lovatelli, e o diretor de campanha do Greenpeace, Paulo Adário, participam do evento em Brasília amanhã no Edifício sede do Ministério do Meio Ambiente.
Fonte: Agência Estado
Alta de preços e fome: países ricos apenas preocupados com suas economias 16.06.08
Comentário do Editor:
Como apontei na análise do dia 9 pp, os governos dos países membros do G8, os mais ricos do mundo, não estão nem aí para o impacto da alta dos alimentos nos já 860 milhões de famintos que sobrevivem no planeta. A única preocupação é se suas economias vão se estagnar, desacelerar, como resultado do choque de preços agrícolas e do petróleo. Os EUA, com apoio inglês, não quer nem falar sobre a especulação com preços das commodities agrícolas (apesar de ter instalado uma comissão para investigar o tema).
É o que mostra artigo divulgado pela Agência de Notícias Reuters no sábado passado, abaixo transcrito.
Países do G8 mostram preocupação com choque de commodities no desaquecimento de suas economias
Fome nos países mais vulneráveis tem menor importância
OSAKA, Japão -(Reuters) As nações mais ricas do mundo alertaram no sábado (14) que os preços elevados das commodities podem abocanhar um pedaço do crescimento econômico, mas não anunciaram um plano para acalmar os mercados ou abrandar os protestos sobre o custo dos combustíveis e dos alimentos.
O câmbio não foi discutido na reunião dos ministros da Economia do G8 em Osaka, no Japão, e analistas dizem que o dólar deve recuar hoje, segunda-feira.
Um pedido da Itália por regulação para diminuir a especulação nos mercados futuros de petróleo encontrou resistência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
Muitos ministros aparentaram mais preocupação com o desaquecimento das economias atingidas pela crise de crédito do que com o aumento dos preços.
"Os preços elevados das commodities, especialmente de petróleo e alimentos, representam um sério desafio para estabilizar o mundo, têm sérias implicações para os mais vulneráveis e podem aumentar a pressão inflacionária global", afirmaram os ministros em um comunicado.
O secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, disse que o petróleo caro pode estender o desaquecimento dos EUA; o Fundo Monetário Internacional (FMI) falou em prolongada fraqueza econômica; e o comissário econômico da União Européia, Joaquin Almunia, alertou sobre a estagflação dos anos 1970 em uma entrevista a um jornal japonês.
O G8 reconheceu a dificuldade em sustentar o crescimento após problemas no setor imobiliário dos EUA gerarem uma crise global de crédito.
O risco dos preços recordes do petróleo e de alimentos contagiar salários e outros custos tornou "as escolhas de política mais complicadas", acrescentou o grupo.
Fonte: Por Glenn Somerville e Eric Burroughs, Reuters.
G-8 toma decisões que comprometem o futuro do planeta 09.06.08
Comentário do editor:
Como devem os governos, empresas e pessoas reagirem aos recentes aumentos vertiginosos no preço do petróleo? Com o Protocolo de Kioto e, mais recentemente, o anúncio dos resultados do IPCC, painel de cientistas que estudou o câmbio climático, a idéia não era reduzir o mais rápido possível o consumo desse combustível fóssil? E o aumento de preço não tenderia a ajudar nessa redução?
George Soros, um notório especulador/investidor bilionário, disse na semana semana passada a um comitê do Congresso dos Estados Unidos que os investimentos em mercados futuros estão exagerando a alta dos preços e criando uma bolha de mercado para o petróleo e outras commodities, conforme relata Carola Hoyos, em El País de sábado (07). E creio que ninguém duvida que ele conhece bem o ramo em que atua. Mas analistas do setor de energia contestam essa hipótese. Acham que o aumento se deve, entre outros, a baixos investimentos em prospecção de novos campos, a instabilidades políticas e ameaças de guerra com países grandes produtores, com o Irã, por exemplo.
E como reagem efetivamente os cinco maiores países consumidores de energia do mundo? como integrantes do G-8, em reunião ontem (08) no Japão, "fizeram um apelo por mais investimento em energias eficientes e renováveis, ... ao mesmo tempo que alertaram para os riscos de uma recessão mundial e (como) os altos preços dos combustíveis são uma ameaça à economia mundial, mais petróleo precisa ser produzido", conforme despacho da Associated Press, distribuído pela Agência Estado.
Nesta mesma notícia, o G-8 "... também insta os países a reforçarem a segurança nuclear, mas várias nações - os EUA, Grã-Bretanha e Canadá - disseram estar determinadas a construir mais usinas nucleares. Na semana passada, a AIE publicou um relatório no qual estima que o mundo precisará de 32 novas usinas nucleares a cada ano, de 2008 até 2050, como parte de um esforço mundial para cortar as emissões de gases poluidores. A Alemanha afirma que não construirá mais usinas nucleares. O Japão considera a hipótese. "A situação provocada pelos altos preços da energia está virando cada vez mais desafiadora," alertou Akira Amari, ministro de Energia e Comércio do Japão. "Se nós não lidarmos com ela, é provável que provoque uma recessão na economia mundial."
E para o mega-especulador Soros, ainda de acordo com Hoyos, "Somente quando uma recessão estiver bem consolidada será provável que um declínio do consumo no mundo desenvolvido anule outros fatores" (que levaram ao aumento de preço do petróleo).
E como ninguém quer recessão, todos os esforços serão realizados pelos governos para manter suas economias com crescimentos positivos, ainda que mínimos, e tome mais petróleo sendo consumido, e mais usinas nucleares sendo construídas...Mas para ficar bem na foto, "apelam" para que alguém faça investimento em "energias eficientes e renováveis"...
Para EUA transgênicos matariam fome no mundo, como a "Revolução Verde" o fez 06.06.08
Comentário do editor:
Mais do mesmo, seria a melhor definição do que se acaba denominando "resultados" da reunião de cúpula realizada em Roma, pela FAO, nos últimos três dias.
Novamente um fracasso, diriam as ONGs que lá compareceram e que têm grande experiência em lidar com o problema da fome nos países pobres.
Mas, sinceramente, o que se poderia esperar de um encontro em que as nações com maior força já chegam com um pé atrás devido à necessidade de defesa de seus interesses comerciais?
Com o Presidente brasileiro e a nossa diplomacia se esforçando para que o documento final não condenasse os biocombustíveis pela alta dos preços dos alimentos, e por uma possível concorrência com a produção de alimentos. Isso pode valer, em parte, para o caso do etanol brasileiro, mas não para seu concorrente derivado de milho. Mas quem brecou realmente essa citação foi o peso político e econômico de quem o Brasil aponta como um dos responsáveis por isso, os Estados Unidos da América.
Para não variar, a cupula chegou a um documento anódino, cheio de boas intenções, que joga para debaixo do tapete as verdadeiras questões a serem enfrentadas.
Os subsídios devem ser discutidos na Organização Mundial do Comércio, lembra Diouf, chefe da FAO. A Oxfam, ONG inglesa, diz que os países ricos gastaram 125 bilhões de dólares em subsídios aos seus agricultores mas aplicaram apenas 4 bilhões em ajuda internacional à agricultura. Enquanto na FAO o tom das discussões é ético e moral, na OMC é puramente comercial e, de fato, em questões substantivas, é comandado pelas grandes transnacionais do agronegócio, não pelos países.
Mas, para mim, o pior é ter que aturar o cinismo reiterado. A partir das décadas de 1950/60, a mecanização e tecnificação da agricultura foi espalhada no mundo pelos EUA sob o rótulo de "Revolução verde", que acabaria com a fome, e até rendeu prêmio Nobel...
Mas a fome continuou atingindo mais e mais pessoas, pois só se beneficiou da tal revolução quem tinha renda para comprar seus produtos, é claro.
Agora, os mesmos EUA que apresentam a "revolução biotecnológica" - os transgênicos, para solucionar o problema do aumento da fome, e que, parafraseando o presidente Luiz Inácio, tem o "dedo sujo" do "american way of life" que demanda mais e mais petróleo, e que transforma alimento - milho- em biocombustível, elevando os preços dos alimentos.
É cinismo demais, ética de menos...